Casal de Petrolina (PE) acusa policiais do 2º BIEsp de agressão: "Não pode ficar impune"



Casal de Petrolina acusa PMs de agressão — Foto: Reprodução / TV Grande Rio

A noite da última segunda-feira (6) vai demorar para sair das memórias de um casal de comerciantes de Petrolina, no Sertão de Pernambuco. Eles acusam policias do 2º Batalhão Integrado Especializado ( BIEsp) de agir de maneira truculenta durante uma abordagem. A ação policial teria acontecido na casa dos comerciantes, no bairro Vila Eulália.

Rosimere Cordeiro Pinheiro e Willian Gomes trabalham vendendo acarajé no bairro José e Maria. Eles contam que a ação policial começou quando William fazia o trajeto de volta para casa, após o serviço. O comerciante diz que viu a viatura do 2º BIEsp, mas não percebeu a ordem dos policias para que parasse o carro.

“Estava vindo do trabalho, chegando na esquina da minha casa e eles vinham seguindo, só que não tinha nenhuma sirene ligada. Dei espaços para eles passar, porque parecia que eles queriam passar, mas só que não. Quando entrei na minha rua, para vir para minha casa, eles vieram acompanhando. Quando chegou em frente à minha casa, desci com meu colega Erik, para guardar as coisas, e eles desceram junto, dizendo: ‘Mão na cabeça, vagabundo’. Dando autoridade, gritando com a gente. Aí eu falei: ‘ vagabundo, não. Nós estamos chegando do trabalho agora, não tem nenhum vagabundo, nós estávamos chegando do trabalho”, diz o comerciante.

William conta que, após descer do veículo e ter a primeira discussão com os policiais, ele decidiu ir para dentro de casa. Foi então que os PMs entraram na residência e teriam começado as agressões. Segundo o casal, oito viaturas foram deslocadas e 32 policiais estariam no local.

“As agressões começaram dentro de casa. Tentei me defende, não tentei agredir eles, só tentei me defender. Não teve como correr para nenhum lugar”.

O comerciante diz que foi imobilizado e espancado, chegando a receber quatro coronhadas de uma espingarda calibre 12, até desmaiar. “Levei as coronhadas aqui na sala porque eles tinham me imobilizado. Um me deu uma gravata e os outros seguraram minhas mãos. O outro policial que estava com a 12 ficou ameaçando me dar um tiro na minha própria casa. Como eu estava imobilizado, o policial que estava com a 12 começou a dar cabada (sic) de 12 na minha cara, deu quatro vezes até eu desmaiar”.

William diz que a esposa Rosimere também foi agredida pelos policias. “Ele chutou minha esposa, botou a arma na minha esposa”. Ela conta que, no momento, a maior preocupação foi com o pai, um idoso de 70 anos, que sofre de hipertensão e está no grupo de risco do novo coronavírus. A vendedora de acarajé afirma que os policiais não respeitaram o perigo de uma contaminação e invadiram a casa da família. Os três filhos pequenos também presenciaram tudo.

“Você vem do seu trabalho cansado, para descansar e acontece uma coisa dessas. Seu pai de 70 anos, as crianças tudo em casa e você é agredido sem nenhum motivo, sem nenhuma razão”, lamenta Rosimere.

Segundo William, as agressões policiais não terminaram dentro de casa. Ele conta que não foi levado direto para delegacia. Os PMs teriam desviado o caminho e seguido para um local deserto onde recomeçaram as agressões. “Depois disso, eles me arrastaram. Eu não sei se estava algemado, não lembro depois que desmaiei. Só me lembro que acordei dentro do camburão”.

“Fui desviado para outro lugar que não sei que lugar foi. Lá, fui agredido de novo. Fui chutado, espancada. Bateram muito em mim. Eles me botaram para fora e começaram a me chutar, me pisar”.

William foi levado para a delegacia, onde, segundo nota da Polícia Civil, foi instaurado inquérito policial “para apurar os crimes de desobediência, desacato e resistência, cometido por dois homens, 23 e 27 anos, em face aos policiais militares lotados no 2º Batalhão Integrado Especializado de Policiamento”. A nota ainda diz que o caso está sendo investigado pela 213ª Circunscrição de Petrolina.

A família juntou o dinheiro das despesas da casa para conseguir pagar um advogado. Willian fez exame de corpo de delito e foi liberado da delegacia na manhã da terça-feira.

A Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Câmara de Vereadores de Petrolina divulgou uma nota de repúdio. O documento diz que “é extremamente grave a quantidade excessiva de policiais na rua violando assim as orientações do Ministério da Saúde e colocando em risco o idoso para a Covid-19”. A nota ainda diz que “a abordagem reforça o despreparo dos policiais e denuncia a ação truculenta por parte do 2º BIEsp".

Por nota a Polícia Militar disse que, “de acordo com o comandante do 2º BIESP, policiais militares estavam em rondas, na última segunda-feira (6), para a captura de suspeitos de assaltos, no bairro do Sol e adjacências. Ao chegarem no bairro Vila Eulália, visualizaram um veículo suspeito, ao dar ordem de parada, o motorista não obedeceu. O efetivo fez o acompanhamento que só parou em frente a uma residência, ao desembarcar o condutor e passageiro não obedeceram a ordem para que fosse realizada a abordagem pelos PMs . Eles desacataram e agrediram o efetivo".

A nota da PM continua dizendo que "todos envolvidos, policiais e suspeitos, fizeram exame de corpo de delito e em seguida foram encaminhados para a Delegacia de Plantão para serem adotadas as medidas cabíveis”.

Questionado se abriria algum processo para investigar a ação dos policias, a PM respondeu por nota que “O comando do 2º BIEsp esclarece que, na ocasião, um dos suspeitos teria adentrado na residência com um objeto na mão, envolto em um pano. Ao retornar para fora do domicílio, teria agredido um dos policiais, deferindo um tapa em seu rosto, sendo detido dentro da residência, em flagrante delito. Segundo o comandante da Unidade, será instaurado procedimento para apurar os fatos relatados”.

Após o episódio, os comerciantes dizem estar com medo, mas garantem que não vão se calar. Eles esperam que os policiais sejam punidos. “Isso não pode ficar impune. O governo tem que fazer alguma coisa. Não pode ficar assim. Quero que eles sejam punidos pelo que fizeram comigo. Não só comigo, mas com a minha família também. Botar uma pistola na cabeça de minha esposa, com um menino de 1 ano e 5 meses, e ficar gritando que vai atirar, isso não é certo. Não é maneira de trabalhar”, diz William.

“Estamos com medo de sair, de ficar em casa, mas o medo não pode ser maior do que a vontade de que a coisa seja feita de maneira correta. Eles têm que colocar policias preparados para nos proteger, para que a gente se sinta bem na sociedade. Vá trabalhar em segurança e venha em segurança”, reforça Rosimere. As informações são do G1 Petrolina.

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