Talibã toma principal cidade do norte do Afeganistão e fecha cerco à capital Cabul

Reprodução / G1


O Talibã tomou neste sábado (14) Mazar-i-Sharif, grande cidade do norte do Afeganistão, "sem encontrar grande resistência", o que representa um grande passo para a ofensiva dos insurgentes que se estende por todo o país e ameaça a capital Cabul.

Entre as maiores cidades do país, o governo agora controla apenas Cabul e Jalalabad.

Na quinta-feira, o grupo tomou Kandahar e Herat, segunda e terceira maiores cidades do país.

Norte e Sul

Mazar-i-Sharif, no norte, é a quarta maior cidade do país, e onde vivem cerca de 500 mil pessoas. "Os combatentes tomaram Mazar-i-Sharif e todos os edifícios oficiais estão sob seu controle", garantiram os talibãs em comunicado.

O marechal Abdul Rashid Dostom, ex-vice-presidente afegão, e Atta Mohammad Nur, ex-governador da região de Balj, cuja capital é Mazar-i-Sharif, que haviam tomado o comando da resistência local diante do avanço talibã, fugiram para o vizinho Uzbequistão, segundo pessoas próximas.

Algumas horas antes, uma importante cidade no sul também foi tomada pelo Talebã: Pul-e-Alam, – capital da província de Logar –, a 70km de Cabul.

Os insurgentes estão a apenas 50 km da capital e não dão sinais de que vão diminuir o passo. Neste sábado, também tomaram a província de Kunar, no leste do país, e logo poderão se aproximar da capital pelo norte, sul e leste.

Mas também neste sábado, o presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, garantiu que o combate contra o Talibã continuava.

"A remobilização de nossas forças de segurança e defesa é nossa prioridade número um e medidas sérias estão sendo tomadas para esse fim", disse Ghani, em um discurso à Nação.

Ele não fez alusão, porém, a uma possível renúncia, exigida por alguns, mas especificou que tinha iniciado "consultas" dentro do governo, com dirigentes políticos e parceiros internacionais, para encontrar "uma solução política em que a paz e a estabilidade" sejam preservadas.

Horas depois, o governo declarou que irá formar uma delegação que "estará pronta para negociar".

Paralelamente, o governo do Catar, emirado que tem sido sede de negociações infrutíferas entre talibãs e autoridades afegãs há meses, pediu aos insurgentes "um cessar-fogo, o que contribuiria para acelerar os esforços para alcançar um acordo político integral que garanta um futuro próspero ao governo e ao povo afegão".

Crescer a barba por precaução

As ruas da capital se mostraram movimentadas neste sábado, mas longas filas se formam do lado de fora dos bancos, e alguns homens disseram à agência France Presse que começaram a deixar a barba crescer, em antecipação à chegada iminente do Talibã na cidade.

Muitos afegãos - mulheres em particular -, acostumados com a liberdade de que desfrutaram nos últimos 20 anos, temem um retorno ao poder do Talibã.

Quando governou o país entre 1996 e 2001, antes de ser expulso do poder por uma coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos, o Talibã impôs sua versão ultraconservadora da lei islâmica.

As mulheres eram proibidas de sair sem um acompanhante masculino e de trabalhar, e as meninas de ir à escola. Mulheres acusadas de crimes como adultério eram açoitadas e apedrejadas até a morte.

"É particularmente horrível e doloroso ver os direitos duramente conquistados de meninas e mulheres afegãs sendo retirados delas", disse o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, na sexta-feira.

Tropas extras dos EUA e retirada de estrangeiros

Neste sábado, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, autorizou o enviou de mais tropas para auxiliar na retirada emergencial dos norte-americanos que ainda estão no país e também de aliados estrangeiros.

No total serão 5 mil soldados: mil que já estão lá, mil que serão deslocados do Kwait para o Afeganistão e 3 mil que já estão a caminho, segundo o Pentágono.

O Reino Unido anunciou também a redistribuição de 600 soldados para ajudar os britânicos a partir.

Vários países - Holanda, Finlândia, Suécia, Itália e Espanha - também anunciaram na sexta-feira a redução ao mínimo de sua presença no país, bem como programas de repatriação para seus funcionários afegãos.

Outros, incluindo Noruega e Dinamarca, preferiram fechar temporariamente suas embaixadas.

Neste sábado, o governo alemão informou que o exército ajudará a evacuar a embaixada da Alemanha em Cabul e seus funcionários "que precisam de proteção da Alemanha". A sede diplomática será reduzida ao mínimo necessário, segundo essas fontes.

'Não aceitável'

No comunicado em que divulgou a autorização do envio das tropas, Biden reafirmou sua decisão de retirar os militares dos EUA do país e afirmou que não acha "aceitável" uma presença sem fim em um conflito externo.

"Durante os 20 anos de guerra de nosso país no Afeganistão, os Estados Unidos enviaram seus melhores jovens, investiram quase US$ 1 trilhão, treinaram mais de 300 mil soldados e policiais afegãos, equiparam-nos com equipamento militar de última geração e mantiveram sua Força Aérea como parte da guerra mais longa da história dos EUA, disse.

"Mais um ano, ou mais cinco anos, de presença militar dos EUA não teria feito diferença se os militares afegãos não pudessem ou não quisessem manter seu próprio país", acrescentou Biden.

"Quando cheguei ao cargo, herdei um acordo feito por meu antecessor - ele convidou o Talebã para discutir em Camp David na véspera de 11 de setembro de 2019 - o que deixou o Talebã em sua posição militar mais forte desde 2001 e impôs um prazo de 1º de maio 2021 para a retirada das forças dos EUA. Pouco antes de deixar o cargo, ele também reduziu as forças dos EUA a um mínimo de 2.500", lembrou.

"Portanto, quando me tornei presidente, enfrentei uma escolha - cumprir o acordo, com uma breve extensão para retirar nossas forças e as forças de nossos aliados com segurança, ou aumentar nossa presença e enviar mais tropas americanas para lutar novamente em outro conflito civil do país", ressaltou.

"E uma presença americana sem fim no meio do conflito civil de outro país não era aceitável para mim", afirmou Biden. "Fui o quarto presidente a comandar uma presença de tropas americanas no Afeganistão - dois republicanos e dois democratas. Eu não iria, e não irei, passar esta guerra para um quinto", concluiu.

Essas informações são do G1

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