Caso Beatriz: houve erros na investigação, que poderia ter sido encerrada antes, diz perita criminal

Reprodução / TV Globo


A investigação sobre o assassinato da menina Beatriz Angélica, assassinada em 2015 dentro de uma escola particular de Petrolina, poderia ter chegado antes ao desfecho. Quem afirma é a perita criminal geneticista Sandra Santos, que foi chefe da Polícia Científica de Pernambuco por sete anos, inclusive quando o inquérito do caso foi aberto. De acordo com ela, houve erros durante a investigação.

Na terça-feira (11), seis anos, um mês e um dia depois da morte de Beatriz, de 7 anos, a Polícia Científica de Pernambuco informou ter identificado o suspeito de desferir as facadas na garota.

Segundo a polícia, o DNA de Marcelo da Silva, 40 anos, preso por outros crimes, está na arma do crime. Ele teria confessado o assassinato e foi indiciado ainda na terça-feira.

A TV Globo entrevistou com exclusividade Sandra Santos, que deixou o cargo de chefia, mas continua trabalhando como perita, ligada ao trabalho de análise de perfil genético de criminosos.

"Era para a Polícia Civil ter saído na hora atrás do cara. E não é a Polícia Científica que faz isso. A gente só trabalha no local", disse. Confira, abaixo, a entrevista completa.

Como é feito o trabalho de análise de DNA de criminosos? Como é feita a coleta, o que é analisado e a que conclusões se pode chegar?

Quando acontece um crime, nós temos peritos criminais que vão ao locais de crime. Eles coletam diversos tipos de vestígios, objetivando resolver o caso e indicar a autoria do crime. As amostras biológicas, que são sangue, saliva, esperma, são extremamente importantes para que você possa traçar um perfil de DNA e indicar a autoria do crime.

Nesse caso especificamente, o assassino deixou uma faca sobre o corpo da menina e essa informação chegou para mim logo de manhã cedo [do dia seguinte] e, na mesma hora, a gente determinou que a faca fosse trazida aqui para o Instituto de Genética Forense. E assim foi feito. Um perito criminal de Petrolina pegou um avião e trouxe.

Nessa faca, no Instituto de Genética Forense, a gente passou a coletar as amostras biológicas. Ela tinha sangue, muito sangue de Beatriz, pela forma como o crime foi cometido. E, no cabo da faca, quem usou a faca deixou DNA de células epiteliais, que a gente chama de DNA de toque.

E aí o nosso trabalho, como perito criminal do laboratório, é coletar essas amostras e traçar os perfis de DNA. Um dos grandes desafios era a gente separar esse DNA da menina e do assassino.

A gente não tinha um perfil que a gente chama de padrão ouro. Que permitisse, naquela época e nos anos seguintes, a gente alimentar o banco de DNA, que a gente já tem desde essa época. Mas a qualidade do perfil [do DNA] naquele momento não permitia alimentar o banco. Então o que a gente fazia? A gente nunca parou de trabalhar. A gente comparava manualmente todas as amostras ou todos os suspeitos que nos foram apresentados. A Polícia Civil apresentou 124 pessoas e a gente comparou e disse sempre: não é essa pessoa.

Um perfil que em 2015 não tinha aquela qualidade necessária, recentemente, a gente conseguiu o que a gente chama de padrão ouro. Esse DNA, agora, permitiu que a gente alimentasse o nosso banco de DNA. E no momento que a gente colocou, o banco apontou esse rapaz, o criminoso.

A senhora acredita que houve algum buraco na investigação, que ela poderia ter sido resolvida antes?

Era para a Polícia Civil ter saído na hora atrás do cara. E não é a Polícia Científica que faz isso. A gente só trabalha no local [do crime]. Era para ter saído na hora atrás do cara. Não foram. Por que, eu não sei. E aí ele se saiu.

Na verdade, sim, poderia ter sido resolvido antes. Se eles tivessem feito uma busca mais ativa e pego o cara, a gente tinha comparado diretamente com o DNA naquela época e tinha fechado. A verdade é essa.

Com três dias eu tinha o DNA. Nesse dia a Polícia Civil já me apresentou um mendigo que estava do lado da escola. A gente já comparou, não é ele. A Polícia Civil continuou apresentando os suspeitos. Se ela tivesse encontrado esse cara antes e tivesse apresentado, a gente tinha feito a comparação manual e tinha pego ele.

Ele entrou no banco [de DNA] como condenado, porque ele já está preso por outros crimes, é uma pessoa que já cometeu diversos crimes, tem uma ficha longa no sistema prisional.

Quando o banco [de DNA] o apontou, ao invés de a gente divulgar logo, a equipe voltou ao presídio e coletou de novo [material genético do suspeito]. Para ter certeza. Porque esse crime não mexeu só com a família de Beatriz. Esse crime mexeu com toda a população. Inclusive eu, que tenho uma filha Beatriz da mesma idade. Então era uma questão de honra desvendar.

Marcelo é o cara que nas imagens aparece depois do crime, caminhando ali pela calçada?

É ele. Aquelas imagens foi a gente que trabalhou também. A gente analisou horas de imagem para ver se localizava ele em algum lugar. Mas era impressionante como esse cara se escondeu. Ele é safo, não é um criminozinho besta, não fez isso a primeira vez.

Eu soube que no depoimento ele confessou, chorou. Ele disse que estava lá e entrou na escola para procurar alguma coisa, ou para roubar alguém, ele é ladrão também, já respondeu por isso. E aí a criança desceu.

Tem uma mulher que fala em depoimento que ela estava lá. Você desce uma escada para chegar [ao local onde Beatriz foi morta]. E ela [a mulher] estava lá atendendo um telefone. E se incomodou com a presença dele, uma pessoa estranha. Ela se incomodou e subiu. Quando ela subiu ela cruzou com a criança, que desceu para beber água. Só que ela estava entretida no telefone e não imaginava que isso ia acontecer.

E ele disse ontem que, quanto a menina desceu, ele a chamou. A menina se assustou um pouco, era um estranho. Quando ela tentou se sair, ele puxou ela e esfaqueou. Não tem motivação. É maldade. Isso é mais comum do que a gente imagina.

O que diz o governo

Em coletiva de imprensa realizada nesta quarta-feira (12), o secretário de Defesa Social, Humberto Freire, disse que o trabalho desempenhado durante os mais de seis anos de investigação foi "extenuante" tanto para a Polícia Científica quanto para a Polícia Civil.

"Essas duas instituições são referência no trabalho policial e de investigação no nosso país. Nos temos delegados, agentes, escrivães, peritos papiloscopistas, peritos criminais, auxiliares de peritos, médicos legistas e auxiliares de legistas comprometidos, honestos, com capacidade técnico científica reconhecida. Muitos principalmente com mestrado, doutorado e até pós-doutorado", disse.

Entenda o caso

Beatriz Angélica Mota participava da formatura da irmã, no dia 10 de dezembro de 2015, quando saiu do lado dos pais para beber água e desapareceu. Esse momento, que ocorreu às 21h59, foi filmado e as imagens são consideradas as últimas feitas da menina com vida.

Pouco tempo depois, o corpo de Beatriz foi encontrado num depósito desativado de material esportivo, localizado perto da quadra em que ocorria a formatura. Ela foi achada com uma faca cravada na região do abdômen.

Investigações

Ao longo de seis anos, o Caso Beatriz teve oito delegados. Desde a data do assassinato, foram realizadas sete perícias. O inquérito acumulou 24 volumes, 442 depoimentos e 900 horas de imagens analisadas. A investigação ficou com uma força-tarefa formada por quatro delegados, que passaram a comandar as apurações.

O anúncio da autoria do crime ocorreu somente 15 dias depois que os pais de Beatriz percorreram durante 23 dias mais de 700 quilômetros a pé, entre Petrolina e o Recife, para pedir justiça.

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